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23/11/2018

Educação, Ideologia e Competitividade

Quando se fala em mudanças, há que esperar pelo melhor. Mesmo com certa dose de misantropia, o otimismo brilha como uma lanterna na evolução humana. Sempre se busca uma forma de superação onde as asas das mentalidades inovadoras fazem as melhorias pelas lições aprendidas, às vezes a muito custo e outras nem tanto. Na educação formal sempre são almejadas que as crianças e jovens tenham asas de águia que lhe permitam voos cada vez mais ousados, distantes e seguros, e não de galinha por seus estreitos limites e subserviência. Para isso, elas devem estar dispostas a enfrentar desafios, como também atritos de paradigmas convencionais, advindos daqueles que não querem as mudanças e lutam a favor de um continuísmo e dominação. A polêmica sobre a “escola sem partido” traz em seu cerne a massificação de uma cultura que beneficia os alicerces há muito superados em diversas nações, mas que se mantem em outras tantas, na nova roupagem do socialismo através do globalismo travestido como o reduto de apaixonados e românticos que enaltecem Lênin, Gramsci e Paulo Freire, há décadas.

Assim, a proposta inicial da “escola sem partido”, tema tão discutido nos últimos tempos na sociedade brasileira, e ainda em apreciação no Congresso Nacional (PL 7180/14), é simples: afastar da escola a doutrinação ideológica que tenha uma manifestação direta ou indireta do professor em sua turma de alunos. O motivo principal é o receio de que os jovens se submetam no plano de conhecimentos da educação como “massa de manobra”, se alinhando às críticas de movimentos revolucionários que descambam para o caos, a perseguição e o autoritarismo. Em outras palavras, no tempo de dedicação acadêmica que o aluno tiver dentro dos muros escolares, é com o objetivo de aprender o que é necessário para emoldurar o conhecimento e se qualificar como um futuro profissional no exercício de suas responsabilidades, direitos e obrigações. Nada exclui o debate político e ideológico tratado como aprendizado e informação extracurricular, ou através da educação não formal (famílias, igrejas, trabalho, mídia), para a completude do cidadão, mas em fórum próprio organizado pela promotora, e que respeite o direito às posições críticas e diversas e, principalmente, sem o maniqueísmo opressor que possa desvirtuar o papel de professores de áreas especificas, mas que ainda persistem numa cegueira ideológica.

O elo entre educação e competitividade evidencia para a maioria dos pesquisadores de Ciências Sociais Aplicadas de todo o mundo, a mais alta correlação que favorece o desenvolvimento de pessoas, regiões e países.  No entanto, as estatísticas são estarrecedoras quando se compara o Brasil com outras nações, sempre com o nosso país muito aquém da média mundial:

https://exame.abril.com.br/economia/brasil-cai-em-ranking-de-competitividade-mundial-2/

Não é preciso fazer muitos esforços para entender que baixa produtividade significa preços altos por custos realizados e de oportunidades cada vez mais insustentáveis, e o resultado é um só: desemprego. Quem quer comprar um bem (produto ou serviço) que custa R$ 100,00, se pode comprar o mesmo bem por R$50,00 , com qualidade igual ou melhor?

Nas últimas décadas viemos reforçando o papel que as grandes potências nos reservaram: o de entreposto comercial, isto é, compra e venda de commodities, sobretudo as de extração mineral e agronegócios. Não conseguimos unir esforços e alinhar objetivos para uma mudança urgente e necessária na qual o que fazemos com as diversas tecnologias possa ter competitividade no mercado mundial. Se não dominamos a ciência, as tecnologias derivadas são as que conseguimos pagando a licença prévia, franquias, e muitas vezes, a manutenção. Como já perdemos as batalhas das últimas décadas pela politicagem e corrupção, continuamos acreditando no “mais do mesmo”. Grande parte da engenharia nacional é fábrica de desentortar bananas.

Para mudar, o passo inicial deve ter o foco na direção de uma nova e radical postura de conexão com a maior parte da população brasileira em condições de produzir: a geração nem-nem. Aquela que não possui nem estudo e nem emprego.  A PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) evidencia que a crise no mercado de trabalho atinge de forma desigual os diferentes grupos sociais no Brasil. Na faixa etária de 14 a 24 anos, concentra-se em torno de 64% do desemprego, e que essa taxa de é maior entre as pessoas com menor escolaridade onde os mais afetados são aqueles que têm ensino médio incompleto (mais de 20%), contra cerca de 6% para os profissionais com curso superior.

Os articuladores do planejamento educacional oficial ficam correndo atrás do próprio rabo, cheios de teorias com retorno prático insignificante, como se compartilhassem e dividissem as agruras da geração nem-nem: nem impactam positivamente a qualidade do ensino, nem reduzem o abismo da quantidade desassistida. É o “aprender fazendo”, “se colar-colou”, “vamos em frente prá ver como é que fica”, e outras formas mirabolantes que escondem a incompetência de muitos e não valoriza o comprometimento de poucos. Os últimos dados disponíveis do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) são alarmantes uma vez que o Brasil, entre as 72 nações participantes, ocupa a 63ª posição em ciências, a 59ª em leitura e a 66ª colocação em matemática. No quadro geral, quase metade (44,1%) dos estudantes brasileiros obteve performance abaixo do nível 2 da prova, considerado adequado. Cerca de 56% pontuaram abaixo do nível 2 em ciências e metade dos alunos ficaram abaixo do adequado em leitura. A área de matemática revelou o quadro mais crítico: 70,25% estão abaixo do esperado:

Brasil mantém últimas colocações no Pisa

Se não houver um planejamento integrado entre Governo, Escola e Empresa, independente de arroubos políticos, que favoreça e fortaleça a meritocracia e a aproximação com a base técnico-produtiva, será mais uma tentativa bem intencionada e mal realizada. É fundamental que esse planejamento esteja ancorado no acompanhamento dinâmico de indicadores que reflitam os valores necessários ao crescimento da competitividade brasileira. Caso contrário, a mágica só vai ocorrer nos estudos teóricos academicistas que saem do nada e chegam a lugar algum.

A competência que precisamos necessita de conhecimento e experiência profissional, habilidades focadas ao exercício da carreira, atitudes que devem ser lapidadas por pessoas éticas e ambiente adequado (físico/instalações, equipamentos e relações interpessoais), propícias para desdobramentos de múltiplos interesses. Em meu livro “Criatividade e Liderança: O desafio da Inovação”, ed. Biblioteca24horas, eu discuto isso mais detalhadamente:

http://189.111.238.146/cont/login/Index_Piloto.jsp?ID=bv24x7br

Finalizando, o que observamos há décadas, sobretudo nas universidades públicas? Uma dissociação entre a teoria e a prática. Cursos de graduação e pós-graduação que empregam meninos e meninas como professores, sem qualquer preparação didático-pedagógica, e que simplesmente passam no mestrado e/ou doutorado, e por falta de opções mais vantajosas, migram para os concursos públicos (professores substitutos ou não) de diversas áreas. E o que é pior, assumem uma responsabilidade didático-pedagógica na qual não estavam minimamente preparados. São jogados na arena (sala de aula) e que se virem com os leões (alunos).  Não há qualquer preocupação de encaminhá-los para uma vivência empresarial ou treinamento didático. Faz-se o pacto de “finge que aprende, que eu finjo que ensino”. E por que procedem e aceitam essa forma? Por dois motivos, o primeiro porque não acreditam que a experiência profissional seja fator de avaliação superior curricular aos seus posts de seminários, publicações de artigos e cursos de aperfeiçoamento realizados. Em resumo, nas curtas passagens acadêmicas, a maioria dos professores temporários não criam uma tradição institucional e valores históricos ao longo do tempo, e a experiência pouco vale àqueles que avaliam e para os que são recém empregados. O segundo motivo é mais capcioso, e não menos contundente: avaliação por competências dá trabalho! Afinal, tudo por uma vida fácil…

Essa face da moeda (docência acomodada) foi evidenciada também pelo filosofo e ensaísta Luiz Felipe Pondé, no artigo “A ratazana com PhD”:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/195937-a-ratazana-com-phd.shtml

No texto, de forma bem direta e elucidativa, o autor compara o nosso modelo universitário com uma fábrica de salsichas, onde o único propósito real é alimentar a burocracia de uma (suposta) avaliação. O produto final: alunos pasteurizados, formatados como salsichas e prontos para repetir o modelo.

É certo que existem cursos de formação bem mais teórica que outros: Matemática, Geografia, Biologia, Pedagogia, Computação, Economia, Música, Artes, etc, mas dizer que tudo é igual é no mínimo jogar pedra em avião. Um estudante de Administração, Engenharia, Medicina, Direito, Enfermagem, dentre outros, não podem prescindir de professores com experiência profissional, a despeito de sua titulação. Como isso vem acontecendo há décadas, só reforçaram a dependência intelectual que hoje sofremos de nações que, por sua vez, defendem os seus trabalhadores como a luta pela própria sobrevivência. Trump foi eleito nos USA por essa bandeira e é prova viva disso.

Mas, nem tudo está perdido. Existem certas ilhas bem cuidadas que ainda mantêm um ar menos rarefeito. A Medicina por exemplo, ainda tenta diminuir o risco de ter alguém atendido por um médico na mesa de cirurgia ou na consulta médica, sem residência (prática profissional ou licença reconhecida), apesar de do contraponto de muitos profissionais cubanos no programa “Mais Médicos”. O Direito também já reduz mais o espaço dos “advogados porta de cadeia”, pela habilitação no exame da OAB, buscando premiar o exercício da profissão com bons profissionais. Tais cursos sabem que a universidade não significa padrão de qualidade.  Para outros profissionais, entretanto, o risco é como a água: inodora, insípida e incolor, e também pode destruir. Economistas, Engenheiros, Administradores ou Contadores podem levar uma nação a posições drásticas, ou uma empresa a bancarrota com um golpe de misericórdia no aumento do emprego, com reflexos na sociedade que anseia pelo bom desempenho. Infelizmente na atualidade, exemplos nefastos são tantos, que parece que a vida copia a ficção, ou a normalidade copia a loucura.

*Márcio Bambirra Santos

Administrador e Economista.

Professor Dr. em Administração.

mb@mbambirra.com.br